5.1.19

um

Deixei a meio um livro chamado L'homme qui avait deux yeux, apesar da estima que me permitiu nutrir:

Sobretudo pela sua capa mole e ilustração de azul-bom-gosto; sobretudo pelo título (a sequência que provoca: 1, a expectativa de singularidade, "um homem com dois olhos?" / 2, a evidência, "ah, não, é banal" / 3, "ah... usá-los, aos dois olhos, que possibilidade"); sobretudo pela sua arquitectura de história-na-cabeça. Reparo agora que é para mim livro irmão do La grande chutte, outra história-na-cabeça, isto é, outro rodar do mundo sobre um eixo que é a cabeça, que curiosamente também deixei a meio. Talvez sejam fórmulas (que amo, que digo sempre que amo, como o huis clos, como as memórias) que abandono por vezes, ou por períodos (estão ali, à minha espera) apenas por me distrair:

Sobretudo com o mergulho nesse espaço que é este, paralelo àqueles; sobretudo com precisar de uma estratosfera à volta, para onde possa às vezes ir nadar; sobretudo com caminhos como o que por acaso me levou a outro livro desta família de afinidades, o How to be both, esse terminadinho de fio a pavio, que difere dos outros numa ligeira distorção do eixo que faz rodar o mundo, no fundo uma abertura, uma pequena fenda histriónica, excentricamente deformada, que pode salvar o ensimesmado (ah... ser dois, que possibilidade). Lembro-me, a propósito, de um texto em que uma vez escrevi as palavras 'a lâmina dessa duplicidade', do poder de incisão que senti, as palavras sendo enfim precisas, aqui em imagem e em intenção, lembro-me do elogio que me valeu, aquele que à época recolhia como migalha de um bolo bem açucarado. Voltando ao livro, volto à sua ilustração, um pequenino recorte de uma pintura do protagonista da renascença:

A mão de uma Santa Lúcia segurando, dizem uns sites com ensaios entendidos que entretanto pesquisei, 'the symbol of a new awareness', 'the eyes of a new painter'; segurando, vejo eu, um pequeno caule de flor (colhido? oferecido? que se oferece? há quanto dura? durará? de que mundo é?) que bifurca em dois rebentos pesados para a fina haste, e que caem sem pétalas de frente para nós:

dois olhos