é a tua cara.
non, c'est plutôt celle d'anna karina, un sourire discrèt s'imaginant en moi.
oui, on y va, beauté-toujours-la beauté, me dit-elle. j’ai ma voiture, je te prends devant le palais après ton cours de danse, j'amène l'italien-mystère et quelque chose pour dîner.
gentille-toujours-gentille. à tout de suite alors, je pars danser. m'écraser les genoux, m'enrouler avec des autres corps, une vingtaine ce soir, et jouer l'enfant. m'ouvrir les hanches et regarder des gens dans les yeux. putain, depuis quand est-ce devenu rare? j'ai soif.
j'ai imprimé 44 poèmes pour qu'il lise, le docteur
boxeur qui me défie
de l'autre coté de la salle
pour qu'il comprenne les nuages qu’envahissent la salle quand mon corps
est là
pas maintenaint, lisez chez vous
il est curieux, il me demande que trouvera-t-il sur ces pages
je divague et il me remet dans la route de
ma mère et de la contemporaineité des bouleversements fondateurs
avec ses pensées sur le masculin
l’abus d’un certain mec
moi en me faisant de très forte
rien d’important, juste le temps, le temps, me dit-il
não se preocupe, tem a sorte de gostar de pensar
lá isso gosto, mas não só, leia isso
arrivés au ciné qui est un mur
qui est l’espace, disait l’architecte
l’espace qui est le temps qui est la pierre
nous passons un arbre, un certain fumeur est là
vejo mal ao longe, toda a gente sabe,
daí a minha sobranceria até focar
a sua sobrancelha, olá
nous parcourons le mur, S. et moi, son mec italien nous suit
o que foi isto, frieza, pergunta S.
pressentiu tudo, como sempre
curioso o fio que liga 3 personagens
S. que me perguntou, naquele dia em que improvisadamente,
ela de vestido, fomos até ao mar mergulhar, flutuar, dar boas-vindas
a que vida fosse, e já sentadas manejando a pedrinha que guardo na estante,
sol poente, me perguntou
e o teu amigo do teatro
que tem ? il te trouve très belle d’ailleurs, digo
on voiait bien que vous vous aimez beaucoup, ele gosta muito de ti
mas há um freio, diz
e eu olhei o mar e não percebi nada
em dois minutos de foyer de teatro viste isso tudo
e eu nunca te falei dele, que bruxa és
e agora no foyer-muro antecedendo o filme
a mesma pergunta, não, é outra, seguida de percebi tudo,
novamente
j’ai du vous arreter pour vous voir dire bonjour
êtiez-pas vous des bons amis, esprits?
na fila para os bilhetes digo não compreendo nada
eu que sempre suspeitei deter alguma sabedoria à nascença
e foi aí que mudámos de língua
começámos a falar francês
o seu mec italien anda ali perdido, tolo
faz-me lembrar o G., tolo, italiano e perdido também
que durante uns meses foi meu destino de comboios
helvéticos, era mesmo tolo
vê coisas que mais ninguém vê, por acaso, comentou
aquela amiga que chega às cozinhas pelo mesmo caminho bacoco que eu
passeávamos suavemente, era um gentleman,
aprendera com o pai, falava sempre do pai,
acordava às seis da manhã e regimentava a vida
tão seriamente, havia ali um mistério
depois chorou só porque fui normal para ele
you are so kind
e a lágrima não perdoou, seria a ultima vez que o via
ali na piscina de zurique com os matrecos que me deixaram ganhar por pena
antes do último comboio
mas já depois das contorsionistas partilhas tão francas no seu sofá
e cama, até se manchou e ele nem foi obsessivo com a limpeza
pelo menos à minha frente
manípulos e alavancas de brincadeira e comando, à vez, a língua italiana
sobrepondo-se à inglesa pouco dada à luxuria
e depois também de projectar, sim, tinha um projector,
o night of the hunter que já vira cinco vezes
na sala dele, e de olhar atentamente para as minhas reacções
e recitar-me as teorias que o seu amigo M. lhe contara do filme
e que ouvi novamente palavra por palavra, sem tirar nem pôr, no dia seguinte
à beira da piscina do amigo
isto é tudo muito estranho, pensei
a ternura dói-lhe porque está dorido
foi desde esse G., do fim desse G. que nunca seria amor, só entretém terno
que comecei a chorar depois do extâse
contei isto a um amigo que me disse que isso é muito masculino
(oh, le docteur, le boxeur, adoraria saber isto)
mas é só quando estou só, o extâse só, de almofada, sabes ?
outro corpo, como na dança, não faz chorar,
em principio.
regresso ao cinema já sentadas, o mec italien que provocou
esta analepse foi à casa de banho, de qualquer modo,
male de machina, diz ele, fico até com medo que se perca até
lá abaixo, mas a S. cuidará
S. teoriza sobre o frio, os portugueses
é covardice (português lindo, o dela)
é imaturidade
é não saber o amor
mas não é amor
quand même, dit-elle
pressagiando as galáxias que aparecerão no écrã
non, non, je dis, regardons le film
l’absolu manque du sens de l'humour, de la dérision, et surtout, de l'auto-dérision…kundera en parle souvent, de l'essentiel sourire aux choses
non, je répète, je ne crois pas
il ne faut pas théoriser l’amitié, digo
ni les gens, sauf s'il s'agit de nous mêmes
allez, on regarde le film
sans paroles
hoje à noite há jantar em casa dela, da S.
nunca lhe disse que já imaginei um filme, um pequeno roteiro
que é ela e a sua casa porque são extensão uma da outra
nos braços movimentados e nas louças com café
é fácil enamorarmo-nos dela e das suas pestanas
mas teria que ser no piso de baixo porque tem o passa-pratos
e as plantas sobre fundo rouge
ao fundo
inusitada amizade feminina esta, ela com as suas tecelagens
e mãos de camponesa das ilhas do sul do mundo
eu com as minhas neuroses de urbe
provinciana
allez, le film est fini
rien est possible, juste
un mot irréparable: tendresse
(et S. me demande: ça va?)
le même sentiment que j’ai ressenti la fois ou
je suis allée voir Dance de Lucinda Childs
dans le plus beau bâtiment de Genève
le Bâtiment des Forces Motrices
j’aimais le bâtiment aussi bien que son nom
les forces qui méttent en mouvement
l'insuportable mouvement de la musique de Philip Glass, dans ce cas-là
dans l'apogée répétitif des années soissante, des
danseuses en blanc se répétant:
en vrai, en écran
mon nez et ma tête submérgés dans une têmpéte d'allergies
des vraies, à la poussière et au
détérgent du bureau
et quelques chaises dérrière moi et de mon diluve,
D., celui qui a coupé les jours en deux
et F., son ange-en-femme,
qui venait de me demander justement pourquoi on ne se parlait pas
oh dieu, que pourrais-je te répondre
juste un verre de vin rouge
et suporter le spectacle
a Childs virá com o mesmo espectáculo à cidade onde agora moro. a ver se vou, se reescrevo a sua memória, ou se deixo só assim.
et quelques chaises dérrière moi et de mon diluve,
D., celui qui a coupé les jours en deux
et F., son ange-en-femme,
qui venait de me demander justement pourquoi on ne se parlait pas
oh dieu, que pourrais-je te répondre
juste un verre de vin rouge
et suporter le spectacle
a Childs virá com o mesmo espectáculo à cidade onde agora moro. a ver se vou, se reescrevo a sua memória, ou se deixo só assim.