Ouvi ontem falar do retorno de saturno
planeta gigantesco que nos esquecemos que
existe tanto como nós (!)
e que demora trinta anos a dar a volta ao sol,
aparentemente tendo um poder astrológico sobre os habitantes terrestres
dessa idade, um ano em tempo saturniano
pois o retorno ou descame das
peles vem revelar o bom ou mau trabalho que se terá
feito ou não feito no dito espaço de tempo nesta coisa do
ser, e chocalhar a mansa cama em que nos deitámos
o rosto que merecemos, la femme de treinte ans
do balzac ou da adília, ou só eu
sendo eu aqui um qualquer eu,
visto que cansa ser sempre o mesmo
também ouvi as palavras esquizóide,
androide
e cinzel
escolhi esta última como instrumento de
minúcia para registar a quarta-feira de cinzas que
também ontem foi, harpa vibratória das
guelras do presente
porque é que esta versão do homem há de ser mais real
do que a versão do ano passado,
perguntei
porque esta é agora, porque
deu a volta e revelou-se
humano, demasiado,
ou seja quiçá cruel, ou menino,
quiçá achando-se ele próprio planeta
quiçá achando-se ele próprio planeta
ou talvez mostre agora a sombra, metade de todas as esferas
volte-face, penso
no que há de mais perto do coração e no mais político
que há no seu mundanismo
ou só um giro, uma pirueta sobre o próprio
eixo
umbigo