Vou escrever então sobre a paisagem
para combater esse pudor de ser
uma, una
porque as células ou assim
se juntam de alguma forma em escultura de mim,
mulher e tal
quero que seja útil, a paisagem
(ao contrário do belíssimo diagnóstico da canção)
é-me absolutamente prévia
como a ti, a eles
e sofre pequenas erosões com o meu passo, o teu, o nosso
de cada dia
com lápis de cor desenhamos o espaço
(projectos tentam existir)
e com o corpo também, gastamos os degraus
e as solas, vestígios
as laranjas apodrecem sozinhas querendo lembrar-nos
de as comer
olha as vitaminas, andam aí resfriados
na selvagem pintura
porque uma ideia de paisagem é essa, a impressão
romântica, ou o carro que rola na estrada nacional,
ou o postal
outra é deitarmo-nos na erva ou nos passeios
(passeios, lá está, lânguida e lúdica
palavra para as pedras)
e na pele ser frio ou ser molhado
e fundirmo-nos por um instante com o fugidio mundo
não porque vá ele partir
se é que me faço entender
il faut cultiver notre jardin
famosamente se escreveu
tento lembrar-me da frase como humilde desculpa para o que
nos dias de hoje se chama de self-care
e a vontade, a vontade
é tudo o que há, ouço e creio muitas vezes,
mais ou menos,
e penso: o jardim,
o que é senão o talhar de um redor à nossa imagem,
a fuga pela cuidadosa
ilusão de sairmos de dentro do ego, enquanto o afagamos
mundo-homem contra a selva
com sorte redentor espelho do criador
ou talvez negócio para viver entre o fora
e o dentro