22.4.19

Abrem-me as gavetas todas
e pressinto que ainda há
uns fundos falsos

sempre fui péssima com arrumação
mas fazem-me notar que demoro
um século e meio entre palavras
bem medidas

de modo a controlar a superfície da
poeira que paira nos fotões
daqui prali

recebo como raspanete
o meu teatro do pensamento
por isso faço um furo de uma gaveta para
a outra

para que pingue
a noite toda o suco espremido
da roupa estendida na minha testa

planeio a minha estratégia
da semana, deixar ir
como é que isso se planeia

ensaio a bondade
o amor
a solidão
tudo me fica mais ou menos largo ou justo

a não ser as flores que ontem colhi
e até comi ao sol para
que desacelerassem o desmembramento
dos armários

pus uma flor no cabelo e foi-se
gone with the wind, brinquei
e a minha mãe riu-se

lembrando o beliscar das
bochechas da scarlett
como as cores naturais

que bem maquilhada por deus
costumo dizer
e a minha mãe ri-se