5.4.19

crónica


Arregaço as mangas
para me agarrar
e tornar senhora de mim como
disse a maria teresa horta
num livrinho que
me custou ler de relance de
tão pouca lonjura do amor emigrante e
outros que tais que
me arrepiaram de lamúria
e confessionalismo
mea culpa
estas linhas são isso mesmo
lamechice de ar ritmado
para dar uso ao
dispêndio de energia que
de qualquer modo
acontece
é o único interesse
não sei que políticas poderiam
regular o desfasamento
temporal
evidente entre o raio e o trovão
do que percebo
e não
e se esta página é branca pode ao menos
apanhar essa dislexia do comportamento

por exemplo hoje fui a uma
aula de dança em que
para além de me ter dado vontade
de saber filmar porque realmente vi cada
vértebra a ser um recorte de
película e de em redor
o silêncio da comunhão
às instruções precisas do apoio delicado a cada
membro e
ser
ter a densidade do
tempo suspenso
deu-me também a confirmação de que movi
mentar o corpo é
tudo
beber um chá
talvez também 
mas depois percorrer uma rua comprida
escorregando chuva
para chegar à necessidade de jantar
e de saber de x e y pelos variados meios
de comunicação
foi just nonsense
não preciso de me enterrar em areia
e falar com um chapéu às flores sobre
um casamento antigo
para ser absurda
basta-me insistir em ter um diálogo
de surdos dentro
desta coisa mim

porque não memorizei nenhuma das coreografias
apesar do prazer dos passos e do
anonimato dos
humanos que dançam fauvistas
na salinha do sétimo andar?
as conclusões lúcidas que definitivas
construí enquanto me desembaraçavam
o remoer
da manhã no cabeleireiro
pareciam lustrosas e 
serenas
lidar com a vida, ter uma agenda, ter
uma coluna vertebral dos ditos aos
não-ditos
e dar graças às cores dos
tecidos que tocaram as
casas em que vivi
as cidades que bebi
e o talento íntimo que
aplaudo de desenhar um mundo em
que o significado de uma palavra
arquivada no metabolismo
pode ser prima de uma mão que sorri num determinado dia debaixo de uma pala
de uma filosofia humana
interna
e o lembrar deste ou daquele e
de uma linguagem própria engrenar o mais terno
retorcer de cantos da boca
talento apuradíssimo quando é para oferecer
de prenda
e ânimo

acabei por só beber um chá
cuja etiqueta diz em espanhol
alegría de vivir
recordando a logística matinal como
um vaga névoa detrás dos vidros embaciados
de abril
espanto-me, sorvendo, do
arco da acção de um só dia sem
trabalho:
da massagem suave, encontro com
uma senhora chamada laurinda,
às ganas às vontades minhas aos
braços esticados e
agora lembro-me de a origem da palavra
melancolia ser na bílis, uma massa negra
amanhã vou ver ao livro em que julgo que
li isso
e depois conto